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"Os Ciganos e a Escola"

20/03/2020

Sabe-se que a tradição cigana não valoriza a escola. Afinal de contas, durante séculos, os ciganos nunca sentiram a necessidade de saber ler ou escrever - bastava-lhes fazer bem as contas e gerir o negócio. A certa altura, muitos rapazes ciganos insistiram em tirar a 4ª classe, simplesmente para poderem ter carta de condução e guiar a carrinha nas idas e voltas das feiras. No entanto, assistimos nos últimos anos, um pouco por todo o território nacional, a uma mudança de paradigma com a entrada de algumas mulheres e homens ciganos no ensino superior e um número cada vez maior a completar o ensino secundário. Ainda que alguns se envergonhem de assumir a sua cultura cigana, provavelmente por autodefesa, escondendo assim a sua etnia. Na verdade, não há muitos ciganos com um curso superior porque também não existem muitas oportunidades para a sua colocação no mercado de trabalho.

Apesar das fortes tradições culturais, as comunidades ciganas encontram-se imersas num processo de mudança, entre a tradição cultural e a comunidade envolvente. E esta mudança é bem visível na relação entre a comunidade cigana e a escola, onde os jovens começam a falar do futuro e das suas expetativas em trilhar caminhos diferentes daqueles que tradicionalmente se percorrem nas suas comunidades de origem.

Por tradição, a comunidade cigana tende à procura de atividades onde a experiência prática ocupa um papel fundamental. É por isso que os conteúdos programáticos da escola não despertam interesse, em grande parte dos alunos ciganos, uma vez que não reveem no conhecimento teórico os instrumentos de que necessitam para o desempenho das futuras tarefas laborais. Contudo, esta representação negativa do ensino e das suas contrariedades tende a ser substituída pela consciência das suas vantagens.

Atualmente, um número significativo de famílias reconhece que, para melhorar de vida, a escola é importante, ainda que a inserção no mercado de trabalho possa vir a ser dificultada pelos estereótipos negativos associados à comunidade cigana. Junto de pais e avós é possível constatar as expectativas em relação às mais-valias que o conhecimento poderá trazer às novas gerações. É um facto a existência de famílias com forte apego pela tradição e que ainda demonstram algumas reservas com a continuidade dos estudos, no entanto, a larga maioria dos pais não desejam que os seus filhos continuem nas mesmas atividades profissionais e por isso incentivam a permanência dos mesmos nas escolas para que estes consigam encontrar um emprego e um futuro melhor.

Atualmente são descritas cada vez mais histórias de portugueses ciganos, com estudos superiores que assumem a adaptação das tradições ciganas aos valores culturais e simbólicos da sociedade maioritária, permitindo-lhes identificar-se simultaneamente com as duas culturas, abrindo caminhos para a possibilidade de se sentirem integrados na sociedade sem que haja diluição da sua identidade cigana.

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